Entrevista com Renê Belmonte (6)

Patrícia Oriolo - Um roteirista renomado disse que a sua profissão era uma das mais bem pagas do mundo. A realidade não é essa e muitos nomes sofrem com cachês baixos, desrespeito dos mais variados tipos. Quais foram os seus "sofrimentos" na profissão?

Renê Belmonte - Putz... a lista é grande. Só de contar o número de vezes em que eu “quase cheguei lá” e depois voltei à estaca zero... sou mais um na lista de pessoas que levaram calote da Rede TV... já vi meu texto ser destruído por diretores incompetentes mais de uma vez (por sorte, na maioria das vezes ninguém viu, porque o resultado ficou tão ruim que morreu ali mesmo)... mas talvez meu maior sofrimento tenha sido a dificuldade para me firmar na profissão, conseguir viver de escrever.

Patrícia Oriolo - No filme "Sheakspeare Apaixonado" em determinado momento o "patrocinador da peça" vê o escritor inglês no palco conversando com os atores e pergunta para o diretor quem é aquele e esse prontamente responde: "ninguém, é o autor". Você acha que para muitos o autor não é ninguém?


Renê Belmonte - Não só acho como ri alto nesse momento do filme. Se o Tom Stoppard, que escreveu essa cena, pensa assim... e o cara é um dos maiores dramaturgos e roteiristas em atividade hoje, um dos caras que eu quero ser quando crescer, então isso mostra que ainda temos um longo caminho pela frente... o problema é que a maioria das pessoas nem sabe o que faz o roteirista. Então conseguir um pouco de respeito é uma tarefa árdua.

Patrícia Oriolo - O que é um roteiro bom?

Renê Belmonte - É aquele que tem o pacote completo: boa história, bom desenvolvimento, bons personagens, bons diálogos... mas que sobretudo tenha a capacidade de dialogar com seu público alvo... espera, deixa eu me corrigir. Um bom filme tem essa obrigação, não um bom roteiro, porque o roteiro não chega ao espectador. O público de um bom roteiro é o produtor, o diretor, o elenco, a equipe. Roteiro bom é aquele que tem a capacidade de motivar as pessoas envolvidas a dar o melhor de si, a acreditar no projeto. Porque só assim se tem um bom filme.

Patrícia Oriolo - Qual roteiro você gostaria de ter escrito?

Renê Belmonte - Vários, mas três me vêm imediatamente à mente. O primeiro é Manhattan, meu Woody Allen preferido. O segundo é Procura-se Amy, do Kevin Smith. E o terceiro é Los Peores Años de Nuestras Vidas, escrito por David Trueba e dirigido por Emilio Martinez Lázaro. Não necessariamente nessa ordem. E sim, adivinhe o que os três têm em comum...

 

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