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Entrevista: Romeu di Sessa (4)
Patricia Oriolo: Na sua opinião o que precisa ser feito para que o cinema digital ganhe maiores dimensões no Brasil?
Romeu di Sessa: Nossa, esse é um outro papo pra horas! Mas bem resumidamente, acho que o Brasil está perdendo (se é que já não perdeu) uma ótima oportunidade de dar uma guinada na história do mercado de cinema, exatamente com o cinema digital.
O Brasil, talvez mais do que qualquer outro país do mundo, tem todas as condições e principalmente todas as necessidades pra virar o primeiro grande centro de cinema digital do mundo. É aquela coisa de tirar vantagem das mazelas. Os EUA têm 38.000 salas de cinema analógicas.
Quanto custará pra eles em tempo e dinheiro transformar tudo aquilo em digital? Nós, com nossas parcas 2000 salas, com inúmeras praças ainda virgens, poderíamos com facilidade implantar um parque inteiro de cinema digital. Além disso, temos o mais importante: tecnologia própria, desenvolvida no país pela Rain, uma empresa nacional, com um pessoal totalmente do bem, muito interessado em cinema nacional, e que simplesmente (até o último papo que tive) não recebe apoio nenhum de parte nenhuma.
Sem a modéstia que não me cabe mesmo, digo que fui eu a primeira pessoa a estimular uma interlocução nesse sentido do cinema digital. Há uns três anos eu fiz uma movimentação pelas listas da internet, organizei um abaixo assinado pedindo pra ANCINE promover um encontro entre essa empresa e membros da comunidade.
Esse abaixo-assinado deu certo e por conta dele a ANCINE fez 4 encontros, em Porto Alegre, São Paulo, Rio e Recife, pras pessoas verem o trabalho digital e entenderem o que poderia vir dele.
Infelizmente morreu por aí. Podíamos incentivar essa e outras empresas e em contra partida garantir uma recíproca, conseguindo assim maior espaço para o produto nacional. Mas o que vai acontecer é que a Rain, como outras empresas que apareçam, vão na verdade ter “apoio” é do produto americano e é com ele que farão seus laços. Depois todo mundo vai chorar e fazer discursos bonitos contra o “poder hegemônico”... E ninguém vai se mexer pro cinema digital – comprometido com o produto nacional – crescer no país. Claro, não é coisa do governo...
Patricia Oriolo: Qual o filme que gostaria de ter escrito e por que?
Romeu di Sessa: Bom, teria uma lista de uns 10.000 filmes... Vou falar só um: o Veredicto. E por que? Por vários motivos: tem uma trama muito bem desenvolvida. Os personagens todos são muito fortes e muito reais. É muito envolvente.
Engana o público muito bem, e eu adoro enganar bem o público, porque sei que o público adora ser bem enganado. (Estou falando da personagem da Charlote Rampling, óbvio.) Porque o tema me interessa muito, essa coisa de alguém tendo o último tiro pra dar (“there is no other case, this is the case”, repetido à exaustão).
Tem uma situação muito legal de ver alguém fazendo uma coisa que em qualquer outra situação seria inaceitável, mas que nesse filme você acha “certo”. Falo da (merecida) porrada que o Paul Newman dá na Charlote Rampling no restaurante. Almodóvar conseguiu fazer essa façanha também no “Fale com Ela”, onde a gente se apaixona por um cara que fez nada menos do que estuprar uma mulher que estava em coma... Enfim, acho Veredicto um filmaço, muito bem escrito, interpretado e dirigido.
Patricia Oriolo: Quais são seus próximos projetos?
Romeu di Sessa: Bom, tem alguns projetos em televisão, tem uma peça de teatro na cabeça já faz um tempo, que “já está escrita”, preciso só teclá-la, um pocket show de 50 minutos que acho que vai dar samba.
Em cinema tem um roteiro de animação que já escrevi o primeiro tratamento e que está em andamento. Tem mais um roteiro de curta que pensei recentemente e acho que pode ficar legal, mais um de longa que já está escrito e preciso achar um jeito de levantar recursos.
Mas tem um projeto de um filme chamado “O Trajeto” que se eu pudesse eu pararia minha vida inteira pra me dedicar só a ele. É baseado numa história real, de uma pouco conhecida heroína brasileira. Não tem nenhuma idéia que eu tenha tido na minha vida na qual eu ponha tanta fé quanto neste filme. Já estou tentando há 3 anos, vou continuar tentando enquanto eu respirar.
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