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A Arte de Fazer Comédia (4)
Por Mauro Alvim
Envolvem sobretudo a gente da roça e do povo comum das cidades. Sua galeria de tipos, constituindo um retrato realista do Brasil na época, compreende: funcionários, meirinhos, juízes, malandros, matutos, estrangeiros, falsos cultos, profissionais da intriga social, em torno de casos de família, casamentos, heranças, dotes, dívidas, festas da roça e das cidades.
Foi, assim, Martins Pena, quem imprimiu ao teatro brasileiro o cunho nacional, apontando os rumos e a tradição a serem explorados pelos teatrólogos que se seguiriam. A sua arte cênica ainda hoje é representada com êxito.
Um redator ou comediógrafo deverá estar atento para o público que ele visa atingir. Uma comédia pelo simples fato de ser comédia não vai fazer o público em geral rir.
Um filme de Woody Alen não vai arrancar gargalhadas do público do saudoso Mazaropi e tampouco vice-versa. Nestes anos todos de dramaturgia, chego a notar que, dentre o povo, quanto maior a classe social, parece que mais vergonha o povo tem de rir e soltar a gargalhada do fundo da alma.
Comecei a observar essa situação há uns bons anos atrás, quando fui assistir um filme brasileiro chamado “Os Mansos”, onde tem a célebre cena do ator Teobaldo que foi convidado pela sua secretária a comemorar o aniversário na sua casa.
Ele foi, achando que ia ter uma noite a dois ótima. Ao chegar, ela pede-o para esperar um pouco pois vai lhe fazer uma surpresa. Imaginando que teria uma tremenda noite a dois ao lado daquele mulherão, fica inteiramente nu e espera que ela o chame.
Eis que, para sua surpresa, ela apaga a luz e ao acender novamente, ali estava toda a família do patrão com um bolo a cantar-lhe “Parabéns prá você...”
Mais do que as gags do filme, adorei este pelas gargalhadas do público de um cinema de bairro, cuja freqüência era de pessoas de baixa renda. Quis assistir o filme outra vez, só que, nesta segunda optei em ir num cinema com um público mais elitizado e observei que as gargalhadas do público não eram lá tão espontâneas como as do outro cinema.
Entretanto, foi a partir desta experiência, em ouvir as sonoras gargalhadas do povo, que me acendeu o gosto para ser um autor de comédia. Escutar o riso da platéia é a resposta mais imediata e mais gratificante para o trabalho de um autor que não há ouro no mundo que pague.
Por tudo dito acima, espero poder ter mostrado ao leitor que existe possibilidade para se fazer comédia e piada para tudo, até para a coincidência. Aliás, você conhece a piada da coincidência? Tenho certeza que não, pois eu também não conheço. Que coincidência, hein?
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