Modelos de produção do cinema em discussão (5)

Não dá pra se esquecer que naquela época o ingresso custava uma fração insignificante do que custa hoje, e que ingresso barato atrai o público natural de qualquer cinema nacional, em qualquer lugar do mundo, incluindo os EUA. Ou seja, naquela época era possível sim se prever um retorno significativo de bilheteria, porque:

  1. Havia muito mais salas
  2. Elas estavam próximas do grande público
  3. O ingresso era barato
  4. Por conseqüência a participação do cinema brasileiro era bem maior do que a que temos hoje.

Não dá pra esquecer também que os filmes feitos naquela época eram muito mais baratos do que os feitos hoje, e mais baratos ainda do que o público espera e exige dos filmes hoje. Mudou o padrão.

De qualquer forma, primeiro com o INC e principalmente depois de 69 com a EMBRA, o esquema mudou completamente, e isso era possível acontecer naquela época, hoje também não é mais.

Em suma o que quero dizer é que não dá pra dizer que se dava certo lá, ENTÃO dá certo aqui. Acho que a coisa é bem mais complexa do que simplesmente se transpor uma idéia de um lugar pra outro. Ela talvez simplesmente não caiba mais.

Isso é o que vejo de “destemporal pra trás”, mas tem o “pra frente” também, quer dizer, esse sistema onde o produtor banca o próprio filme e depois é recompensado pelo filme feito pode muito bem fazer parte do futuro do cinema nacional, (como já fez do passado) mas não vejo como possa fazer parte do presente. Não acredito que tenhamos estrutura hoje, no curto ou no médio prazo pra fazer essa mudança.

No entanto o texto do Roberto (como sempre) tem um valor inestimável, porque traz aquilo que mais sinto falta de ouvir no meio hoje: a idéia do Roberto de alguma forma mira em sustentabilidade no setor, mira até em uma certa independência, e mira num sistema mais próximo da meritocracia, e estes sim são conceitos muito atuais, muito contemporâneo e muito alinhados com o mundo em que vivemos hoje.

Mais do que tudo a idéia do Roberto corrige um desvio fatal de rota, porque nesse esquema proposto por ele, o produtor é premiado na exibição e não na produção como acontece hoje. O problema me parece ser a sua inaplicabilidade imediata.

De certa forma o Roberto já demonstra uma certa concordância com isso, quando pressupõe um período híbrido de transitoriedade de dois anos entre um modelo e outro. Não acho que isso possa se mudar em tão pouco tempo, mas principalmente não acredito que uma mudança desse calibre possa acontecer só escorada em tempo.

Não basta só o tempo passar, nem 2 anos, nem 20, é preciso que nesse tempo, seja ele qual for, mude também a mentalidade, a forma de se olhar pro cinema, mude a expectativa com modelo de negócio, mude - tanto nos dirigentes quanto nos fazedores do cinema nacional – o olhar pra coisa toda, entendendo por exemplo que não há cinema no mundo que funcione com praticamente todos os seus recursos voltados exclusivamente pra produção, e sobre quase nada pra distribuição e promoção do cinema (como acontece aqui).

É necessário que mude a mentalidade pra se entender que precisa disposição pra cortar na própria carne e “conceder” um remanejamento das verbas dedicadas à produção também para a distribuição e também para incrementar o circuito exibidor, hoje com pífias 2000 salas, contra 36000 nos EUA e 4500 na Argentina.

Enquanto não se olhar pra cinema como “negócio”, acho que não teremos pra onde ir, nem com as boas idéias do Roberto.

 

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