Caricaturas de Gente - Subtipos do Caráter “Dador”Tempero Caricatural - Dama de privilégios
Felipe Moreno
Não sei por que não me ouvem mais. Será que vou ter de me fazer de xodó para de novo recuperar atenção e cuidado, que são meus por direito?
Ah, eles dizem que ajo como bebê, como uma ta-ti-bi-ta-te (dita as sílabas uma a uma fazendo-se como), mas esquecem que eu ralo por eles. Dou partes de mim mesma para que não passem privações e dificuldades. Deviam me chamar de dadivosa. Mas, ao contrário, ficam me deixando nervosa e eu odeio quando me fazem isto!
“Menina, você taí? Ei, menina, onde você se meteu?”
Mamãe tinha chegado e meu pai devia vir atrás, para variar, com a sacola repleta de laranjas Bahia da feira. Não estava a fim de levar papo com nenhum dos dois, muito menos olhar para eles que tinham me irritado profundamente. Minha vontade mesmo era destituir os dois do comando de casa para fazer o que eu quisesse.
“Ei, Odete: pare de tratar Solange como uma menina. Ela já tem dezessete anos!”
“Mas não parece. Somos obrigados a atender a todos os seus caprichos. Senão o fazemos, ela vira bicho”.
Fiquei me segurando atrás da porta para não gritar. Só Deus sabe o quanto sofri neste instante. Meu fino lábio também, porque o mordi com os dentões da frente até ele sangrar. Estavam falando de mim! Como ousam questionar o que quero? Sabe disco voador? É isto que vou fazer com os pratos do armário!
“Ela não sabe o que quer, Petrônio”.
“Mas que sabe querer, isto ela sabe”.
Vou explodir essa cozinha com meu míssil. Ousam negar que eu tenha vontade de querer. Aquilo que quero tanto... A maior aventura que uma garota alucinada por esportes radicais poderia querer...
“Que loucura é essa aí de saltar de uma ponte? Isto não é esporte, mas suicídio!”
“Ela só fala nisso, Petrônio. Bungee alguma coisa...”
Dessa vez, eu gritei aguda e ensurdecedoramente e, logo depois, percebi que eles pararam de falar de mim na cozinha. Acho que agora a carne fina do meu lábio inferior tinha virado um filé prestes a cair. Que raiva estava sentindo, mas precisava me segurar senão os discos voadores viriam nos abduzir de verdade. Até que não seria nada mal.... Um salto radicalíssimo da Via Láctea com a minha desparaquedada vontade!
“E ainda por cima ela está saindo com um camarada chamado Tigrão. É possível?”
“Como você sabe, Petrônio?”
“Ouvi ela falando ao telefone com o sujeito”.
Não agüentei mais. Arranquei o bife ensangüentado que tinha pendurado no lábio e o joguei longe. Claro que eu gritei mais uma vez, estridentemente como sempre fazia, só que agora era de dor mesmo. Como num salto de bungee jump, caí na frente dos meus pais, que ficaram perplexos com minha agilidade de tigresa.
“Eu amo esse cara. Estão me entendendo! Vocês não têm o direito de se intrometer em minha vida!”
“Mas você pode exigir toda a nossa atenção, não é queridinha do papai e da mamãe?”
Comecei a chorar. A raiva que sentia bombava o meu coração até eu senti-lo na boca. Meu corpo estava quente, fervendo, cozinhando o meu feijão. Que adianta ser dadivosa, se nem meus pais sabem reconhecer o meu sacrifício? Sempre fora fiel aos meus princípios, a mim mesma, àquilo que achava justo. E querer ter o privilégio de ser amada é o primeiro sinal de justiça por me dar tanto, tanto, tanto... Fazia tudo por eles e agora eles estavam querendo tomar conta de minha vida afetiva. Justo com o Tigrão, a quem eu jurei fidelidade. Até o próximo salto, claro. Depois, é só sentir um novo friozinho na barriga...
Papai e mamãe, definitivamente, não sabem nem entendem a linguagem de seu bebê. Ta-ti-bi-ta-te. (Disse isso com todas as letras para eles e fui. Para mais um salto no escuro.)
É fácil registrar um roteiro no site do Writer's Guild of America. Basta ter um cartão de crédito. Eles armazenam uma cópia em qualquer formato (doc, rtf, final draft, screenwriter, txt ou html) e geram um
recibo eletrônico com o número do seu registro.