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PSICANÁLISE DO TIPO DE PERSONALIDADE
- PERSONAGEM "DADOR" (4)
Felipe Moreno
Numa história ficcional, por exemplo, este modelo dualístico poderia ser descrito na expressão de um personagem ao longo do seu arco psicológico, do qual conheceríamos o conjunto característico pessoal do seu tipo de caráter, de maneira a revelar em atos, palavras e comportamentos suas qualidades inferiores (da personalidade adquirida antes da história) e, muitas vezes, por se tratar de ideal autoral, deixar entrever as sutis qualidades superiores da personalidade enfocada, tendo em vista as mudanças e aprendizados verificados ao fim de sua história.
E por falar em narrativa, voltamos ao tipo de personalidade "Dador". Se imaginássemos uma narrativa particular ao tipo, um estado atual para o 'Dador" seria ele (a) estar numa situação de aparente tranqüilidade, porque se sente amado (a) pela pessoa amada.
Uma peripécia significativa seria em um momento em que ele (a) sofreria algum desafio, ou teria a atenção mobilizada para algum obstáculo correspondente à sua relação amorosa.
Já em um estado de luta nessa possível estrutura, o "Dador" tentaria equilibrar o "eu" verdadeiro com os "eus" secundários e assimilados, uma vez que há um conflito em jogo agora, na base do qual o personagem "Dador" faria revelar suas necessidades ou sentimentos verdadeiros e não "falsificados" em função de seu hábito de agradar os outros.
Por fim, um estado de ajuste na situação pessoal do "Dador" poderia ser seu reposicionamento no conflito, afirmando o seu orgulho (outra característica do tipo) em face de sua importância para o outro.
Para todos os efeitos, o orgulho do "Dador" é o seu pecado capital. Em busca de sua essência, ele teria de rumar no sentido contrário, ou seja, ir ao encontro da humildade genuína, percebendo que o seu orgulho lhe mostra o seu desejo por importância, por ser amado à custa de seu hábito compulsivo de dar.
Sugestões com temas para histórias com esse tipo de protagonista abrangeriam histórias de amor, de camaleões, de manipulação, de sedução, de sacrifício, ou de supermãe, esposa, pai ou marido, e também aquelas histórias cujo "ethos" percorreria os altos valores humanos, como o altruísmo e o amor superior.
Como vimos aqui, as possibilidades de configurar um tipo de personalidade eneagramática permitem transitar também por sua subjetividade com maior propriedade, uma vez que há uma coerência no padrão de pensar, de agir, de sentir, de se defender, enfim, de sua expressão no mundo e, ao pensarmos na ficção, no espaço cósmico das narrativas.
Finalizamos este estudo dizendo que ao acendermos os holofotes sobre a subjetividade do personagem e de seu padrão de caráter, a figura demiúrgica e operante do autor pode parecer ser menos sentida. Pelo menos hipoteticamente. E, se assim o for, temos quem sabe uma outra forma de constatação do efêmero na ficção: a transitoriedade dos atos característicos de determinados tipos de personalidade, porque, sem estes, não pode haver humanidade reconhecível pela grande maioria espectadora da vida, do mundo, da arte e das personas, a ponto de nos sentirmos observadores viajantes no tempo e no espaço de nossas tão caras e conhecidas ilusões.

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