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Psicanálise do Tipo de Personalidade - Personagem "Devaneador"
Felipe Moreno
Tratamos nesta oportunidade do terceiro tipo de personalidade eneagramático do centro emocional da mandala dos tipos de personalidade.
Também conhecido como Romântico Trágico, o “Devaneador” constitui um padrão bastante interessante para efeito de desenvolvimento de um protagonista que contenha estofo para viver uma história audiovisual, se pesarmos ser ele dono de um caráter especialmente complexo no que tange às suas emoções profundas e motivadoras de desejos e sonhos muitas vezes contraditórios.
A propósito de sonhos e devaneios, este tipo tem forte inclinação a ansiar sempre o melhor fora de seu alcance palpável, isto é, idealiza pessoas, situações e momentos agradáveis, pois acredita que o que vive ou sente não é o ideal ou está longe de fazê-lo feliz.
Do ponto de vista psicanalítico, o “Devaneador” foi uma criança que se sentiu abandonada ou que teve um sentimento de perda irreparável. Provavelmente sem a presença dos pais (mesmo que presentes podem ter sido ausentes) para servir de continente aos anseios e emoções da criança “devaneadora”, ela cresceu vinculada ao sentimento de perda iminente, por isso ansiando ideais complementares para um fantasioso desejo expelido do ego.
O tipo ainda pode se subdividir em aqueles que são hiperativos, ansiando por competições na esfera do relacionamento a dois, ou ainda serem “sofredores crônicos”, chegando às raias do temerário modo de sobrevivência, à custa de um círculo vicioso do qual a perda e a retomada podem fazer parte do habitual comportamento.
Importa dizer ainda que a “inveja” está por detrás do comportamento do “Devaneador”. É esta paixão mais universal que o conduz à arena das relações, mas de modo latente ou quem sabe ainda agindo de maneira subliminar.
Dessa forma, o que o tipo faz ou como ele age tem como pano de fundo a presença insidiosa de sua paixão característica, que ao exercer tal preponderância, impulsiona o tipo à vida íntima e social, bem como à própria sobrevivência física.
O “Devaneador” apresenta inclinações românticas, melodramáticas e individualistas. Mas, além disso, tem também tendências artísticas, místicas e elitistas. E como foi citado, a inveja é o seu pecado capital. Ela refere-se geralmente à comparação com outras pessoas, e isso também pode ser explicar por que a identificação, como acontece também aos tipos “Dador” e “Desempenhador”, vincula a atenção do “Devaneador” a pessoas, coisas, imagens, sentimentos e idealizações de várias naturezas.
É a identificação com o mundo exterior que faz o “Devaneador” desejar atenção, normalmente, à custa de dramatizações exageradas nas quais sobressai seu papel de vítima do mundo ou como o maior sofredor que pode existir na face da terra.
Por relativizar seus profundos sentimentos de perda e de abandono à necessidade de atenção externa, o “Devaneador” tem um núcleo narcísico altamente concentrador, em torno do qual os desejos e impulsos do ego giram como se formassem um satélite.
Mas, por outro lado, esse tipo de narcisismo é compensado pela necessidade que o tipo tem de atenção externa à base de identificações idealizadas (ou devaneadas), de maneira que os impulsos de vida gerados no inconsciente do tipo são voltados para o grupo, para o mundo exterior, resultando em um dado equilíbrio entre seu narcisismo e seu social-ismo, para usar termos de Wilfred Bion (psicanalista inglês morto em 1979).
Felipe Moreno é autor e professor. Coordena o Projeto Letras Criativas destinado ao ensino e à criação de roteiros audiovisuais.
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