Psicanálise do Tipo de Personalidade
- “Personagem Legalista ” - (3)

Buscando uma célula-dramática típica para o “Legalista”, teríamos: “alguém do tipo desconfia dos motivos de outra (s) pessoa (s) que, investido de autoridade, cobra-lhe submissão e responsabilidade, gerando com isso mais dúvida e ansiedade no tipo”.

A essa idéia também repousa em fenômeno comum encontrado na infância do “Legalista”: desconfiado da autoridade materna ou paterna (ou os dois juntos), a criança “Legalista” irá crescer pondo em xeque tal autoridade, e isto está ligado à certeza das coisas que busca insistentemente devido ao medo básico norteador de seu tipo de personalidade e grande fomentador de seus questionamentos viscerais.

A propósito disso, depois de crescer contestando a autoridade do pai ou da mãe, o tipo tenderá a fazer uso da projeção dessa postura junto as outras figuras autoritárias conhecidas, como o chefe, o político, o professor, etc.

Já quanto à questão narrativa do tipo, poderíamos descrevê-la partindo de um estado fóbico e atual do personagem “Legalista” em algum lugar sobre o qual ele coloca o seu olhar suspeito ou desconfiado.

Neste caso, qualquer lance desestabilizador em sua personalidade partiria de um indício de perigo nesse lugar, muitas vezes só presente em sua imaginação.

A luta que ele enfrentaria aconteceria por pressões inesperadas que exigissem decisões práticas do “Legalista” (um de seus entraves mais comuns é o agir natural, sobretudo num movimento de estresse como este exemplificado), por exemplo, num provável empecilho de fugir desse lugar.

Já o ajuste à situação poderia ser qualquer modo de o “Legalista” se ver livre desse momento de perigo (real ou imaginário), quem sabe fazendo-o enxergar coisas que não conseguia ver, ou fazendo aceitar determinadas regras que recusava aceitar, ou mesmo fazendo-o adotar uma postura que estivesse na contramão de seu traço antiautoritário frente a tais circunstâncias. Isso tudo respeitando o padrão psicológico uniforme do tipo “Legalista”.

Temas de histórias para o tipo podem falar de dramas que envolvam riscos e perigos, luta contra autoridades, defesas dos oprimidos, personagens do tipo “oh dúvida cruel!” e dramatizações de estados fóbicos, entre outros.

Para o roteirista, um personagem do tipo “Legalista” pode ter muito interesse dramático na medida em que apresenta um conjunto dinâmico de inquietação intelectual (não é à toa que ele faz parte do centro de inteligência intelectual do Eneagrama).

Este aspecto coloca em evidência uma questão sutil porém interessante: através de sua predisposição ao medo e por conseguinte à desconfiança e à duvida, um personagem “Legalista” pode desencadear subtemas potenciais da história resultante de seu traço cognitivo característico em torno do questionamento das coisas, o que pode ser de grande valia ao conteúdo dramático da história.

Um personagem cético, medroso, desconfiado, rebelde, protetor dos fracos, sem dúvida, carrega em si mesmo uma bomba-relógio programada de período em período para explodir em atitudes apocalípticas e vitimizantes.

É interessante para o roteirista ter em suas mãos personagens que sejam emocionalmente predispostos a esperar masoquisticamente pelo pior, ou em “ver” coisas perigosas ganharem tons e formas monstruosas (imagens cinematográficas), ou ainda reagir intempestivamente contra autoridades, em defender os mais fracos – e tudo isso é parte da psique do “Legalista”.

Sugiro ao leitor então um exercício com esse tipo: tome essas características citadas e tente você mesmo (a) encontrar uma personagem “Legalista” visto de seu ângulo pessoal. Certamente, você criará um representante que poderá iluminar pelo menos algumas dessas características citadas em relação a esse tipo de personalidade, causando, assim, identificação direta com o espectador, uma vez que todos nós temos dentro da gente esses traços, ainda que em proporções diferentes, e isto se deve ao fato de que necessitamos nos sentir seguros nesse mundo “perigosamente ameaçador”. E aí vai arriscar? Não deixe que “medo” do Legalista o (a) paralise!

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Felipe Moreno é autor e professor. Coordena o Projeto Letras Criativas destinado ao ensino e à criação de roteiros audiovisuais.

 


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