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Políticas Digitais: As novas empresas do mundo digital (2)
Newton Cannito
Como o poder público pode incentivar o surgimento de uma web tv?
Como vimos o novo mercado dos conteúdos audiovisuais digitais tem características diversas do mercado cinematográfico. Isso exige novos modelos de negócios, de produção e financiamento.
No Brasil todos os modelos de incentivo estatal a produção audiovisual independente são baseados na lógica da produção cinematográfica, que tem por princípio a produção de um produto unitário e de alta qualidade técnica. Esse produto poderá gerar sub-produtos (alguns até mais rentáveis do que o produto mãe), mas permanece a lógica de produção de um único produto mãe, que catalisa os sub-produtos.
No mundo digital, ao contrário, a lógica do processo substitui a lógica do produto. Um site é o bom exemplo. O que significa “produzir” um site? É botar sua primeira versão no ar? Com certeza isso não é o fundamental.
Ao contrário do cinema, o site é uma obra em construção permanente, sem término definido. Sua primeira versão pode ser simples e o site costuma ir sendo construído aos poucos. Cada mudança (atualização) poderia ser considerado um produto. Essa é a essência da mundo digital, onde o processo de realização se mistura com os produtos resultantes. Como diz Negroponte, “ser digital é ter licença para crescer”.
Essa lógica do site, com sua ênfase no processo, contamina toda a produção do mundo digital, até mesmo o cinema. Tarantino filmou “Kill Bill” por 4 anos e muitas cenas que ficaram de fora da versão para cinema serão lançadas no DVD, como cenas extras da “versão do diretor”.
Isso, com certeza, aumentará a venda do DVD, fonte importante de renda para o projeto. Outros diretores filmam os ensaios também em câmera digital, minimizando a diferença entre ensaio e filmagem. Como o ensaio também é filmado e o trabalho mais cuidadoso da luz pode ser feito na finalização ele poderá ser aproveitado na versão final do filme. É o processo de realização que se entrelaça com o produto.
O cinema, no entanto, ainda é uma mídia da era industrial, anterior ao digital e que ainda segue seus próprios modelos. Mas entre o site e o filme, temos ainda a produção de televisão. Essa também está mais para o processo do que para o produto. A grade de programação é ocupada, em grande parte, por programas de auditório, de entrevistas, de debates, e similares.
São programas que exibem, muitas vezes ao vivo ou gravados de “primeira”, as pessoas em conversas espontâneas. Mesmo a ficção televisiva é seriada e se altera no contato com o espectador. Alguns puristas exigem que a televisão exiba mais produção de “qualidade”, que a telenovela não altere a história, que a imagem seja melhor, etc...
Em suma, eles exigem que a televisão seja mais cinema. No entanto, a qualidade da televisão é dada por seu específico, que é justamente a capacidade de interagir com o público e o fato de ser uma obra em criação permanente. Na TV, tal como digital, o processo e o produto se misturam.
Restringir a produção de televisão e a produção digital aos modelos de produção cinematográficos não faz nenhum sentido. O cinema costuma ser realizado por projeto, por um edital que premia um filme individualmente ou por patrocínios para projetos unitários.
Depois de realizado o filme terá suas próprias negociações para exibição. Já a produção televisiva, por exemplo, precisa ser premiada já com canal de exibição acertado. Um bom programa de tv deve ser pensado também para ser contra-programação de uma emissora em relação a outra. Além disso, televisão é hábito e um programa pode demorar meses para conquistar a audiência.
A maioria dos objetos digitais se aproxima dessas características da televisão. A pergunta é: Como o governo pode ajudar no surgimento e a sedimentação comercial de uma Web-tv? A ênfase no processo nos obriga a repensar a lógica dos patrocínios e financiamento.
O modelo de esportes pode ser uma boa inspiração. Como todos sabem não faria sentido financiar apenas o evento que será o jogo de domingo entre o Palmeiras e Corinthians. Em esportes o patrocínio é para um processo (para um time ou para um jogador), não para um produto.
Por isso, a lógica da produção digital se aproxima do modelo do financiamento para esportes. Para produzir objetos digitais é necessário, tal como num time de futebol, uma equipe coesa e que “funcione” junta, com jogadores em várias posições diferentes (software, design, edição, trabalho de apresentador, etc...), mas jogando um pouco em cada uma delas (“voltando para marcar” quando necessário). E também, tal como no esporte, é necessário uma renovação permanente do elenco que muitas vezes, até por questões pessoais, deixa de “funcionar” junto.
Uma política de apoio à novas mídias audiovisuais está na interface entre políticas industriais, científicas e culturais. O conteúdo audiovisual é uma das maiores indústrias do mundo contemporâneo e tem uma produção pautada pela inovação.
Os programas de incentivo audiovisual deverão favorecer o surgimento de produtoras audiovisuais através de financiamentos e subsídios, contribuindo para a sedimentação de empresas inovadoras que possam atuar no mercado.

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